Sobre perdas esperadas
É praticamente impossível não sentir se triste quando a notícia de uma perda bate a nossa porta. Mas e se for algo que você já esperava, um parente muito doente, alguém já idoso, alguém que você SABIA que já não tinha mais muito tempo "entre nós".Quando eu era criança tentei ter animais de estimação diversas vezes. Não sei se era questão de sorte, ou se realmente tudo que aconteceu foi para que eu aprendesse a lidar com isso. Primeiro foi uma cachorrinha vira lata, chamava a de pretinha devido a cor do seu pêlo. Pretinha era sapeca e tinha porte médio, vivia fugindo do pátio pelos vãos da cerca. Ela se contorcia toda pra conseguir pular e sair a farrear com os cachorro da vizinhança, foi atropelada duas vezes, tinha alguns ferimentos, cuidávamos dela, mas ela continuava a fazer a mesma coisa. Até que um dia pretinha mão resistiu à um atropelamento e acabou falecendo. Meu primeiro animal de estimação me deixava, mas o que mais me marcou foi o que eu ouvi da minha avó sobre aquilo, ela disse que "era de se esperar". Como assim? É claro que uma criança não ia aceitar a morte do animal de estimação com essa frase. Antes que alguém fale da cerca, não, na época não tínhamos recursos para fazer uma nova cerca por conta da pretinha, não esperávamos por ela, a adotamos de outro que a abandonou.
Voltando à fala da minha avó. É claro que não aceitei a morte dela e chorei por várias noites. Mas depois de alguns anos eu compreendi isso. Era de se esperar, ela sempre fugia, ela já havia se machucado, um dia isso acabaria acontecendo.
O mesmo destino tiveram mais dois de meus cães, Belinha morreu de cinomose, no final de seus dias apenas existia, já não comia e seu sofrimento era visível, logo, sua morte era de se esperar. O outro cão, Bebê teve o mesmo destino da primeira, adorava fugir pela grade do portão e por vezes ficava entalado ali, até que, depois de machucar se muitas vezes, acabou por não conseguir mais correr e também foi atropelado fatalmente.
Todas estas perdas passaram pela minha cabeça quando minha bisavó ficou muito doente no alto de sua vida. Ela já tinha quase oitenta anos, andava bem tortinha, não enxergava bem e então os ossos e musculoso começaram a se render. Doenças respiratórias vieram e ela passou suas últimas semanas amarrada em uma cama de hospital. A penúltima vez que a vi, ela ainda estava bem lúcida, me reconheceu e disse que ficava muito feliz por ter me visto entrar na faculdade, por ter visto minha irmã fazer vários aniversários e por nos ver feliz. É claro que eu a amava, ela praticamente me criou, era minha companhia da infância, brincava comigo. Mas seus últimos dias foram muito tristes. No sofrimento de seus últimos dias, pedia para as pessoas que estavam com ela que a deixassem partir. Pedia para não darem medicação, para que a deixassem quieta, segundo as palavras de uma amiga que cuidava dela, ela havia se conformado, já não queria mais sofrer. Na última vez que a vi ela estava irreconhecível, me disseram que era provável que seu sofrimento não durasse mais muito, e que era pra eu estar preparada.
É claro que eu não queria isso, fui pra casa chorando, consolada pelas pessoas mais próximas, e aceitei seu pedido, que "deixasse" ela partir em paz. Nesse dia sua amiga me disse que eu deveria guardar as boas recordações, e que por mais que eu quisesse ela junto comigo, e que a separação doeria, eu deveria aceitar que seu sofrimento já não lhe cabia mais. Que era isso que ela queria agora. Quando recebi a notícia de sua morte alguns dias depois disso, a frase da minha avó voltou a minha mente... Era de se esperar.
Eu fiquei triste, claro que sim. Mas dessa vez eu também já estava preparada. Depois de algum tempo eu percebi o que era pra ser a frase da minha avó e a partir disso desenvolvi um mecanismo de defesa que só ficou claro anos depois. Quando eu recebo a notícia de alguém muito doente, percebo as pessoas queridas chegando ao seu fim, eu crio essa capa protetora, e começo desde o início a pensar como vai ser, o que eu devo fazer para aproveitar o máximo possível do tempo que ainda temos, para que, quando eu perceber que está chegando sua hora, eu aceite.
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